A Morte de Ivan Ilitch – Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas.

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Venho aqui confessar minha primeira vez com um russo. E como em muitas outras primeiras vezes a palavra EXPECTATIVA estragou tudo.

Quando a Patrícia Pirota apresentou os livros do Fórum de maio, não foi nesse em que votei, mas tinha ficado bem interessada em lê-lo também. Quando livro chegou em casa e eu vi que tinha 92 páginas apenas minha vontade já diminuiu. Tenho certo preconceito com livros curtos, apesar de já ter lido alguns muito bons, mas gosto de histórias longas e super elaboradas.

A Morte de Ivan Ilitch vai tratar de, pasmem, a morte do próprio. E só percebi que o assunto seria somente esse lá pela página 30, antes disso eu estava esperando algo inesperado acontecer. Mas depois que me conformei em ler sobre a morte, encontrei motivos para gostar do livro.

Num primeiro momento do livro, a história de Ivan Ilitch é contada pelo narrador e percebemos o quanto a base de tudo sempre foi o que as pessoas achariam dele. Suas relações são baseadas no externo, no que a alta classe da sociedade acha dele, em como ele pode ter uma posição cada vez melhor, usando para isso suas relações, sua carreira e inclusive sua família.

Em determinado momento da vida, enquanto ele está decorando sua casa nova (para mostrar aos outros), Ivan Ilitch sofre uma queda que no início não o preocupa, mas a partir daí passa a ter sérias dores e problemas de saúde, que vão culminar em sua morte.

Nesse ponto o personagem oscila entre focar sua vida na cura ou na doença e os questionamentos começam a surgir. O juiz passa a perceber o quanto construiu relações vazias ou funcionais, ao invés de construir relações humanas, até mesmo dentro de sua própria casa. E como homem voltado aos outros que sempre foi, passa a atribuir a culpa de sua doença às pessoas ao seu redor.

Quando ele percebe o quanto o fim de sua vida é triste pela falta de afeto e que isso é resultado da vida que ele escolheu, já é tarde para voltar atrás, a morte já está muito mais próxima do que alguma oportunidade de mudar. E conseguir enxergar a realidade somente no leito de morte é triste para ele e para quem está lendo. A angústia de não ter com quem ter com quem conversar de verdade parece ser mais forte que a dor, por mais que essa seja forte e terrível para ele. Tão importante a ponto de chamá-la de “ela”, como a tivesse personificado, a dor é sua única real companhia.

Poucos dias antes de ler o livro eu tinha recebido de um amigo um artigo em que uma enfermeira que trabalha com pacientes terminais havia compilado os maiores arrependimentos de seus pacientes quando chegavam perto da morte. E eles eram muito parecidos com os citados no livro, apesar de ser um artigo recente. E como em todas as histórias que falam de morte que eu já li, ninguém quer falar sobre a morte com quem está prestes a morrer, imagino que essa tentativa de esconder o que está exposto deve ser muito aflitivo.

O final do livro foi a melhor parte pra mim, quando o personagem percebe que quando a vida de sofrimento acabou, a morte acabou também, porque para ele todo o sofrimento já era a morte.

Confesso que gostei muito mais da narrativa e da escrita do autor do que da história em si, mas reconheço um poder de reflexão sobre a vida do personagem que nos faz conhecê-lo no leito de morte como foi em toda vida.

 

 

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4 pensamentos sobre “A Morte de Ivan Ilitch – Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas.

  1. A narrativa, mesmo curta, é muito intensa. O autor conseguiu em poucas palavras descrever com grande realismo os sentimentos mais profundos de Ivan Ilitch. Gostei bastante do livro e da escrita do Tolstói.

    Gabriela, no começo da leitura só estava pensando no 1Q84, rs. Mas depois fluiu muito bem ^^.

    Abraços e um cheiro na sua shih tzu ultra fofa!

    • Oi Lulu!
      Eu comprei Ana Karenina, estou louca pra começar a ler, agora que sei que vou gostar da escrito do autor!!
      Hahahahaha quando eu terminei o 1Q84 II não consegui ler mais nada por dias…

      A Zoe agradece!
      Beijo

  2. Gabriela, eu ri quando vc se decepcionou com o tamanho do livro, rs.
    Eu acho que Tosltói é um mago com as palavras; se você gostou do estilo de escrita nessa novela (que é bem mais direto e seco), estou certa que vai gostar mais ainda em Anna Kariênina (onde se explora com uma riqueza enorme o lado psicológico dos personagens). É um romance magistral, estou amando mesmo!
    Sobre A morte de Ivan Ilitch eu acho que o propósito do autor e o estilo se unem de uma forma única (tentei falar sobre isso no meu post, mas não sei se consegui). E achei muito, muito bom o final também! É lá (na dor de se saber mortal) que nos unimos a Ivan Ilitch.
    Abraços!

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