[Fórum Entre Pontos e Vìrgulas] O sentido de um fim

Li esse livro para fazer um vídeo ou post para o Fórum Literário Entre Pontos e Vírgulas (http://entrepontosevirgulasforum.blogspot.com.br/),  porque adorei a ideia de ver a opinião de várias pessoas diferentes a respeito de um mesmo livro, já que essa diversidade de pontos de vista é o que eu mais gosto dos blogs e canais literários do youtube.

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  E que surpresa boa foi esse livro. Quando ele chegou achei ele muito    fininho e normalmente eu não gosto de histórias curtas, normalmente a impressão que eu tenho é de que precisava de mais páginas para elaborar melhor a história. Mas sei que isso é preconceito da minha parte, uma hora passa.

O livro gira em torno das memórias de Tony, do que ele lembra, do que ele acha que lembra e de toda elaboração por trás disso tudo. E esse foi o assunto que mais me prendeu no livro, ainda mais que a história em si. Porque me interessa muito a racionalização que fazemos ao contar cenas que aconteceram conosco. Por todo livro é esse caminho que o narrador faz, ir e voltar e se perguntar o tempo todo se o que ele está lembrando realmente aconteceu, mas não de um jeito confuso, mas sim de um jeito extremamente racional.

Como qualquer pessoa pode ter certeza de que o que se lembra realmente aconteceu? Como podemos saber se nossas memórias não se confundem com nossos medos, desejos e receios modificando as cenas na hora em que as passamos para todo significado que compreende um discurso. A própria escolha das palavras e de seus significados já faz a imagem ser diferente dependendo da escolha delas.

Tony começa a história falando de sua adolescência e das relações mais importantes que tinha na época. Com sua família, três amigos e a namorada mais marcante de sua vida. Dentre seus amigos, o mais lembrado e principal da história é Adrian, que na visão de Tony era mais inteligente, racional e avançado que todos os outros adolescentes que ele conhecia. Os comentários sobre esse amigo carregam um tom de adoração que chega a cansar, principalmente porque ele mantém a mesma visão desse amigo desde adolescente, enquanto reconstrói todas as outras lembranças. A impressão que dá é que Adrian está num pedestal tão alto que a racionalização de Tony não o alcança nem com o passar de toda uma vida.

A namorada que marcou sua vida e reaparece quando ele acha que nunca mais a veria é Veronica e é muito interessante ouvi-lo (ou lê-lo se preferir) contar a respeito de um namoro que aconteceu numa fase de transição entre a castidade e a liberdade sexual (que me lembrou muito o livro Na Praia, de Ian McEwan), e o quanto essa transição era confusa para eles. Veronica exerce um poder sobre Tony, prendendo-o a ela com uma seriedade e frieza atípicas das namoradas adolescentes, mas como segundo ela Tony “nunca entendeu e nunca entenderá”, sabemos que essa representação da namorada é confusa para ele, e que falta muita objetividade para entendê-la.

Nesse vai e vem entre passado e presente Tony conta tudo que aconteceu com ele no intervalo entre a adolescência e a velhice, se é que posso chamar isso de intervalo, ao invés de simplesmente vida. Sim, acho melhor dizer que ele conta a vida que passou nesses momentos, falando de seu casamento e da linda relação com e ex-esposa, da relação superficial com sua filha e netos e das decepções que ele sofreu na mais importante das relações, com ele mesmo.

Há uma parte do livro em que o narrador diz que “à medida que as testemunhas da sua vida vão diminuindo, existe menos confirmação, e portanto menos certeza, a respeito do que você é ou foi.” e essa frase me remeteu imediatamente e um texto que li em uma aula de Fenomenologia da faculdade cujo título surpreendentemente eu ainda lembrava. Não que faça muito tempo que eu tenha terminado a faculdade, mas são tantos textos e tantas disciplinas que quase não me lembro dos títulos, mas esse me marcou, o que me fez pensar se não foi por isso que eu gostei tanto desse livro, o texto é Os Aposentados da Memória de Luigi Pirandello que está no livro “40 novelas de Luigi Pirandello”. Nesse pequeno texto o assunto também é a memória e o quanto a memória que os outros tem de nós faz com que sejamos indivíduos completos e que “perder” amigos e familiares para a morte, é perder a visão que eles tem de nós, logo um pedaço de nós mesmos.

Gostei muito do final do livro, em que Tony tem uma grande surpresa, pois mostra que não há racionalização suficiente na vida que nos assegure de que nada de novo vai acontecer. Além disso gostei muito da narração e da escrita de Julian Barnes, autor de “O Sentido de um fim” que foi vencedor do Prêmio Man Booker Prize 2011.

“…nossa vida não é a nossa vida, mas apenas a história que nós contamos a respeito da nossa vida.”

 

 

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